Publicado em Crónica de Um dia, OUTROS

Nas muralhas do castelo

Só sabe o valor da calma quem já conheceu a tormenta. 

Sentei-me durante anos nas muradas do castelo a olhar de cima para baixo e a pensar na pouca vontade que tinha de regressar. Ainda hoje tenho pouca vontade de regressar, mas de outra perspectiva.

É tudo demasiado visceral, demasiado terreno e demasiado “eu” para ser vivido no quotidiano. Foi tudo vivido muito depressa com uma intensidade que deverá sempre algo por mais severa que seja a palavra para a descrever.

Enfio de novo a cabeça no livro e perco-me de novo a pensar nas muralhas do castelo, no nascer das magnólias a esta época do ano, no trinar das cordas em finais de Abril. Será que fica para sempre ou será que um dia me sentarei nas muralhas sem recordação, sem memória de percorrer a calçada com lugares elevados e veredas estreitas no caminho?

Receio o dia em que me esqueça.

Pensei que teria sempre saudades do Tejo. Não tenho. Não sinto a sua falta, o seu apelo, nem tão pouco a vontade de apresentar a minha prole aos cisnes do jardim. Ficou lá longe, não sei porquê. Ao contrário do que achava… ficou lá longe. Mesmo quando regresso, nunca regresso. Está lá longe. Eu sou outra pessoa e a cidade é outra cidade. Costumava pensar em todas aquelas caras que um dia partiram e não voltaram, ou que surgiam anos depois, do nada, já descontextualizadas e sem perceber o que se havia passado, ou o motivo pelo qual o mundo não havia parado na sua ausência.

Fiz as pazes comigo e com o mundo. Deixei de ter saudades de algumas pessoas, perdoei outras, perdoei-me a mim, perdoei a cidade, perdoei o que me castigou, perdoei quem castiguei por não me perdoar.

Eu não sou daqui. Não sou de lá. Sou de mim e é disso mesmo que preciso. Descalço os pés, coloco-os na areia e respiro fundo a brisa gélida que me cristaliza no caminho os pulmões. Expiro e enterro um pouco mais os pés.

Volto a olhar para o livro e liberto em desabafo:” Demoraste. Foi muito tempo, demoraste…”

Sinto uma mão no ombro, como que apaziguando esta consciência inquieta.

O que restou da minha ligação à cidade florida, está guardado no sorriso dos meus sobrinhos e nos braços das minhas irmãs de coração… o resto de mim,  despede-se e entrega a inexistente saudade ao perdão.

Quando voltar, que seja por amor àqueles que “são daqui“… o resto, o tempo levará a outras gerações que em meia década se irão cruzar com imagens e rostos que nunca conheceram e histórias que não farão ideia de aonde os levaram.

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Gata 199X-2017

Bem do ladinho do céu tem um lugar chamado Ponte do Arco Íris.
Quando morre um animal que foi especial para alguém daqui, esse animal vai para Ponte do Arco Íris.
Lá existem riachos e colinas para que todos os nossos amigos possam correr e brincar juntos .
Tem muita comida, água e sol, e nossos amigos estão quentinhos e confortáveis. .

Todos os animais que estavam velhos e doentes voltaram a ter vigor e saúde; aqueles que estavam machucados ou aleijados estão inteiros e fortes novamente, exatamente como nas nossas lembranças dos tempos que já se foram.
Os animais estão felizes e contentes, exceto por uma coisinha: cada um deles sente falta de alguém muito especial , que teve que ficar para trás.

Todos correm e brincam juntos, mas chega o dia quando um subitamente para e olha para longe. Seus olhos brilhantes estão atentos; seu corpo treme de ansiedade. De repente ele começa a correr para longe do grupo, voando sobre o gramado verde, suas pernas indo mais e mais rápido.
Você foi avistado, e quando você e o seu amigo finalmente se encontrarem, vocês se abraçam numa reunião feliz, para nunca serem separados novamente. Os beijos alegres chovem sobre o seu rosto; suas mãos afagam de novo a cabeça amada, e você pode olhar mais uma vez nos olhos confiantes do seu amigo, ausentes há tanto tempo da sua vida mas nunca longe do seu coração.
Aí vocês cruzam juntos a Ponte do Arco Íris…

Autor desconhecido
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Até já**

Amigos e visitas… Vou aqui ao lado numas micro-férias. Estou a precisar. A seguir às mudanças de casa, tiro um tempinho  para fazer pouco ou nada.

Volto daqui a um par de dias

hasta luego*