Porque é que o amor é complicado

Tenho a certeza de que não sou a única pessoa a pensar sobre o assunto. Dá trabalho conquistar, manter, esperar por um futuro que tem limite. Porque sim. E ninguém quer estar sozinho só porque sim. Ninguém quer perder a fé nas borboletas. Ninguém quer ter um espaço vazio e uma casa a fazer eco quando chega depois de um dia de trabalho.

Porque é que o amor é complicado?

Porque é fácil sentir borboletas na barriga quando o sorriso dele se demora em ti. Toda a fé está posta nas loucuras, nos momentos em que o mundo pára e é só vosso! E é maravilhoso!

Esquecemos todas as vezes em que o coração ficou partido e as lágrimas tomaram conta do nosso rosto.

O amor é difícil por isso mesmo, porque não temos certeza mesmo quando pensamos que temos.

Porque é que o amor é complicado?

Porque todo o amor tem uma fase de deslumbramento e todo o amor nos leva a momentos de monotonia e rotina. Saber lidar com isso também é sentir amor. Saber combater e encontrar soluções, também é amor.

Tudo o que temos é o agora e o que queremos fazer com o “agora”. Se não existir fé, se não existir vontade de mais, de ser feliz, pergunto-me o que fazemos cá?

Sei que o meu coração não é feito de uma única peça. Por mais expostas e pessoais que sejam as minhas reflexões, por mais que falem aquilo que é “meu”, sei que é de todas as peças partidas que se faz a fé no amanhã.

Perguntam-me várias vezes porque é que vamos casar?

Se pensar bem ainda não respondi de forma honesta a ninguém. Respondo hoje a quem quiser ler, na certeza de que o amanhã é incerto.  Quero casar com esta pessoa porque quero viver com ele como se fosse o último dia, quero celebrar o tempo que já passou e o tempo que não sei se eu ou ele temos. Quero celebrar com os nossos amigos e família a maior obra de arte e a “coisa” mais bonita que Ele e Deus me deram, que é o nosso rebento.

Quero sentir o coração cheio e viver a alegria de partilhar a nossa família com o mundo porque a única coisa que temos é o hoje e um coração cheio e sobre o amanhã ninguém sabe. F0dam-se os hipócritas, os corações partidos (porque também já parti o meu e voltei a colar e a partir e a colar, tantas vezes que me esqueci de contar)…

Se sonhar e querer mais fizer de mim uma tola ou uma miúda (é só para acompanhar o aspecto físico)… Sonhar é a única coisa que me mantém a mesma pessoa que carregava uma boneca ruiva pela sala da minha mãe. É a única coisa que me continua a ligar aquela pessoa que aparecia em casa com uma caixa cheia de gatos ou até mesmo à pessoa que fez as malas e foi para Braga atrás da felicidade. Apaixono-me todos os dias, por mim a ser feliz, por pessoas, por sítios, por detalhes. Tomei uma grande dose de #f0da-se# até chegar aqui. Desisti tantas vezes que me cansei de desistir.

Amar é difícil, mas não amar é mais.

 

 

a dívida do Sonho

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A construção do sonho é infundada, crua, por isso chamar-lhe sonho. Os outros chamam-lhe romantismo.

A procura do sonho, da autodeterminação, da vontade de vencer, sem estrangeirismos e sem marketing de bolso. Hoje não existe uma pessoa que não seja nutricionista para criticar os gordos e os magros, não existe uma pessoa que não seja pediatra para criticar as mães ou apontar o dedo a quem não quer ter filhos e estranhamente não existe quem não defenda os sonhos… e aqui estou eu a defender os sonhos, do alto do meu sofá.

Os sonhos são coisas antigas como cicatrizes de infância, e não me recordo de em algum ponto da minha vida ter desistido de ser quem sou, porque a par de todas as capacidades e formações, de tudo o que sou capaz de fazer (estranhamente e sem modéstia, de tudo um pouco), o sonho acabou por ser o único escondido pelo nevoeiro. Poético mas, tens de ir à escola, escolher um curso a em que te encaixem (não interessa se se adequa ao teu coração, à tua pessoa, à tua alma, ele tem de se adequar à tua média). Poucos eram os que realmente gostavam de informática quando ingressei o curso profissional de Informática Fundamental, no entanto quando escolhi lutar pelo acesso ao ensino superior, estava apaixonada pelo lado romântico do jornalismo. Queria falar de pessoas para pessoas. Queria como sempre quis, ajudar. Sem arrependimentos, devia ter ido na altura para bombeira ou enfermeira. Supria esta necessidade de forma muito mais prática.

Ser mãe, escrever (ilustrar um livro), plantar uma árvore (ou uma dezena), tudo isso são marcos, são pontos de felicidade. Ser mãe é parte da essência, é um luxo nos dias que correm. Fazer filhos é fácil, ser mãe e ser pai é cansativo, leva-nos o tempo e a energia, mas deixa-nos a pensar no que queremos fazer por este mundo. Todo o Pai e toda a Mãe se sente ridiculamente pequeno. Deixamos de ser filhos, agora somos Pais, e temos de fazer o mundo girar de forma a que o legado seja útil, rico, proteja os sonhos, o trabalho e os objectivos daquele pequeno ser, que o pior de tudo é não te pertencer. Ser Pai/Mãe é o maior acto de abnegação

Ainda não fez um ano desde que a decisão de mudar de área e guardar o canudo numa gaveta foi tomada. Claro que não tomei essa decisão sozinha. Claro que qualquer caminho agora é feito a uma velocidade mais contida, ainda assim, como diz o ditado:” Sozinho vais mais depressa, acompanhado vais mais longe”.

O renascimento do sonho é a promessa de que no dia em que a minha filha me pedir para acreditar que ela é capaz, nós vamos ser moralmente capazes de responder sem fantasmas, sem desculpas e sem mentiras.

A dívida do sonho.

Parabéns Portugal

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Diz que ontem Portugal ganhou tudo e mais alguma coisa no desporto (dando a alguns um chá de humildade). Tenho de admitir que não sou de bola, nem tenho muita paciência. .. mas sou pela justiça do que nos foi roubado, do que disseram sobre nós,  das faltas de respeito com os emigrantes portugueses (em especial com os luso-africanos).  Ontem fez-se justiça! Parabéns! ! !

#por #euro2016 #gugugal #gatapreta

 

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Há amores assim…

Há amores assim, que nos fazem acordar cedo e dormir tarde. Dormir de lado e acordar torta e escangalhada. Há amores que nos fazem sentir borboletas no estômago e aqueles que nos fazem ser borboletas… pairar ora de forma rápida e graciosa ou correr para acudir uma aflição num àpice. Há amores que te despertam com um bom dia e um beijo… outros com um choro e fralda suja, e ainda assim te enchem o coração como nada o faz.  Há amores que te pemitem a contemplação de uma beleza inqualificável, que muda a cada minuto… cada segundo vale o cansaço de poder ver e amar desta forma.
Há amores assim…

Um feliz 2015

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Futebol

Debaixo de um título com a palavra futebol permite-se tudo. Desejar a morte, insultar a mãe, insultar o pai, o primo o avô e o cão até à quinta geração.

O Futebol incomoda-me como qualquer outro fanatismo doentio. Incomoda-me porque entra no meu espaço pessoal, no meu sentimento de segurança física, no agradável do meu espaço online. Incomoda-me como ver imagens de animais mal tratados, mas até para esses há esperança. Não visito “sites da bola”. Detesto. Sinto que me é sugada a energia positiva da mesma forma que me é sugada quando recebo uma carta das finanças. Não preciso visitar sites da bola, basta conviver com pessoas ou ter pessoas nas redes sociais, para ler um chorrilho de insultos, onde até a alma mais sensata mostra os seus limites (ultrapassados) de bom senso.

No fundo sinto-me triste, atraiçoada, por em tempos ter gostado de seguir alguns jogos de futebol.  Era miúda e gostava da euforia dos jogos, da alegria, da emoção, da energia positiva que emanava de um jogo de futebol. Gostava genuinamente. Do Benfica e do Sporting decorei alguns nomes, seguia os jogos e sentia a euforia.

Hoje incomoda-me a facilidade como se deseja a “morte do gatinho”, a “luz a arder”, como se sujam as paredes dos clubes com tinta rasca, como se pega fogo a cachecóis. Incomoda-me como até um jogo a porta de uma loja de venda de tv por cabo, leve as pessoas a insultar os funcionários – como se isso fosse uma atitude normal e corriqueira. Entristece-me ver pessoas por quem sinto algum respeito a dar-se, a prestar-se a figuras e desejar morte online. Debaixo de um título com a palavra futebol, permite-se tudo.

 

Carta ao nosso Primeiro

Houve em tempos um jovem casal que vivia numa pequena cidade. Viviam tempos difíceis, no entanto, com alguma ginástica e esforço conseguiam colmatar as dificuldades e viver com alguma dignidade. Pensavam eles que essa pequena cidade, localizada num pequeno país, dividido entre a esperança, frustração e apatia, iria ser um dia, um lugar para crescer e criar os seus filhos.
Num desses dias acordaram e descobriram que o governo que guiava o seu país e as forças políticas associadas haviam perdido a razão e a noção da realidade. Aumentaram os impostos sobre bens de primeira necessidade, jogaram para a rua pessoas que sempre fizeram pela sua vida, encareceram electricidade, água, gás e mataram de fome quem nunca precisou de pedir.
O jovem casal deprimiu com esta situação. Depois de anos a estudar, a procurar um emprego, a sujeitarem-se a todo o tipo de trabalhos para sobreviver e a tentar numa luta inglória juntar dinheiro para um dia poderem ter um filho  e poderem casar… o jovem casal desistiu desse país. O jovem casal desistiu de Portugal.
Os governantes do meu país perderam a noção entre a realidade do esforço e o esforço  empurrado para a miséria. Retiram-nos a dignidade e dão-nos cada vez mais a direcção de caminhos ridículos a seguir. O meu país envergonha-me.
Não me importo de fazer esforços para o bem comum, nem tão pouco para ajudar terceiros… Agora aumentar o imposto sobre a eletricidade e o gás, que são produtos sem os quais uma família não consegue de modo algum viver com dignidade, é ridículo. Portugal, acorda! É ridículo!
(Já agora) Coloquem os impostos sobre a carne e sobre o peixe. Sobre o pão e sobre o leite e matem os vossos habitantes. Matem-nos à fome! Subam os impostos aos livros, aos jornais, revistas e toda e qualquer cultura… matem-nos com ignorância. Estupidifiquem-nos! Se formos estúpidos será mais fácil explorar-nos! Façam de nós um país de estúpidos!
Matem associações de apoio social, matem escolas, matem autarquias, matem instituições de protecção aos animais, matem lares de idosos e creches… Matem as pequenas e médias empresas e engordem os grandes. Não vos percebo Portugal. Não vos percebo.
Subam os impostos ao álcool, ao tabaco, aos videojogos, aos canais de cabo, aos carros de luxo, as roupas caras, mas não as papas de bebé, aos medicamentos, a água.
Precisamos de viver e vocês, por nós eleitos, estão a matar-nos! Estão a matar esta nação. Estamos a adoecer por dentro, a deprimir, a ficar stressados e a apertar o cinto onde já nem temos calças!
Estamos sem fé, sem futuro e vocês vão perder-nos.
Diga-me sr. Primeiro Ministro: tenho 26 anos, quando o senhor não poder governar, quem é que vai conduzir o barco deste país se uma parte de nós não pode estudar e a outra que estudou vai para outros países procurar uma vida melhor?
Ganho 650€, tenho 26 anos, uma licenciatura, um carro com 10 anos e inscrevi-me agora num Mestrado. Viajei do Algarve para Braga para poder trabalhar e não sei se o meu contrato de trabalho temporário será renovado para um contrato definitivo, mas com estas condições, vocês estão a sufocar-nos!
Por favor…
Eu não quero ser obrigada a sair do país!

Acorda geração: “não há almoços grátis”

Acho fantástico ler mensagens do género: “Eu mereço, eu tenho direito, eu não me vou privar de nada porque sou a pessoa mais importante”… vindo de quem sempre dependeu de terceiros e nem por um minuto correu sérios riscos ou passou necessidade.

Acho fantástico que alguém tenha esta capacidade alucinante de viver alheado(a) da realidade quando famílias inteiras passam fome e inclusive quando um dos seus pais se encontra no desemprego… Acho fantástico uma pessoa achar-se no direito de dizer “eu mereço”, sem nunca ter feito nada para poder e ter direito de pronunciar essas palavras…

Culpas? Não sei de quem são. Talvez dos pais que tentam oferecer o que não tiveram quando mais novos. Talvez da pouca exigência da escola que evita reprovar os meninos para não causar traumas aos pobrezinhos… Talvez da sociedade e deste novo conjunto distorcido de valores. Não sei.
Sei que em momentos mais do que suficientes senti vergonha destes discursos.

Aos mais velhos, aos meus pais, aos meus avós com quem já não posso contar, à quem me criou e à geração entre a minha e a deles, peço desculpa porque sinto uma profunda vergonha destas pessoas que falam assim e que na sua maioria pertencem à minha geração e a geração mais nova… Sinto orgulho por pessoas como a minha melhor amiga Raquel Ferreira que estudou e trabalhou em simultâneo, e o curso que tirou é mesmo dela e não dos papás.

Sinto pena e esperança nos colegas que não encontraram trabalho na área mas que ainda assim continuam a esforçar-se e em muitos dos casos trabalham em áreas que nada têm a ver com o que estudaram. Ao menos sabem dar valor ao esforço e sabem que esse esforço não é sinónimo de derrota. Sabem que tudo o que vem de bandeja tem um preço. Sabem o valor das coisas.

Espero francamente que toda esta gente alienada acorde um dia, ganhe vergonha na cara, sangue na guelra, vontade de mudar o mundo e perceba que o futuro só depende deles.
A mudança não vai aparecer numa saqueta prateada que se verte para uma taça e se mistura com água. Acabou o facilitismo extremo. Tenham orgulho em procurar as próprias soluções. Sintam orgulho e façam questão de encontrar um rumo e orgulhar os vossos pais.

Aos meus pais um enorme, imenso e eterno obrigada por custearem os meus estudos até à licenciatura e pelo esforço para ajudar a comprar o velhinho carro. O resto ficará por minha conta. Espero poder um dia compensá-los com o maior conforto possível quando os anos assim o pedirem.

“Geração à rasca” (1)

CRÓNICA DE UM DIA


Este e-mail (ler abaixo) leva-me a mais um conjunto de pensamentos baseados em alguma observação e trocas de ideias.
Em conversa com o R, formado em psicologia, observávamos algumas crianças que corriam num supermercado sem que no horizonte se observasse qualquer supervisão dos pais. “Algumas pessoas acham que criar um filho é como plantar uma semente, deitar água, e deixar crescer… essas mesmasA luva usada para a chapada é a mesma que pode ser usada para fazer magia. A escolha é tua... pessoas entram mais tarde em consultórios de psicologia com os filhos a lamentarem-se das atitudes menos correctas dos seus rebentos e de não compreenderem os motivos para tais actos”.
Ter um gato num apartamento, exige alguma disciplina e educação do animal. Alimentação correcta, satisfação das necessidades de espaço. Quando falamos de um cão, acresce-lhe a necessidade quase diária de desgaste de energia com exercícios e caminhadas.  Em ambos os casos a atenção e amor são importantes, vitais. 
Algumas vezes ouvi e senti a comparação de crianças com animais. (riso) Pois. Ainda não existem canis para deixar os miúdos.
Fiquei a pensar nisto e no modo como tem sido duro, sem que de facto seja doloroso, encontrar um caminho.
Tive sorte. Não me foi negado o essencial, mas a casa da barbie que nunca tive, os patins em linha que a minha mãe não me comprou e a acelera que os meus pais não me deixaram adquirir, ensinaram-me a ouvir um não e a perceber que as vezes mais vale passar por uma pequena frustração e crescer do que viver a tabefes da vida.
De facto a única coisa que me continua a frustrar profundamente é não compreender o que se passa a minha volta… uma falta de senso comum indescritível.

Um dia, isto tinha de acontecer. Existe uma geração à rasca? Existe mais do que uma! Certamente! Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida. Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo. Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos. Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada. Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes. Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, … A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca. Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado. Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais. São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração. São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer “não”. É um “não” que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar! A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas. Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados. Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional. Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere. Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam. Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras. Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável. Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada. Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio. Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós). Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida. E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas – ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!! Novos e velhos, todos estamos à rasca. Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens. Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles. A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la. Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço? Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta. Pode ser que nada/ninguém seja assim.

Recebido por email, enviado por R. Ferreira
Desconheço o autor.