Uma semana (Após o Adeus)

Na televisão passava um programa típico de sábado em que uma figura pública entrevista a outra. A rapariga, dos seus 30 e tal anos, falava sobre o fim de vida do avô e sobre as saudades que isso lhe causava… Lembrei-me do meu avô António e da falta que me faz o seu sorriso e saber do seu amor pelos netos. Lembrei-me ao longe da minha avó. Nunca pensei ser possivel perder alguém para a morte ainda em vida.

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Foi no passado verão quando a fui visitar ao lar. Procurei a D.Rosa, para saber se a Palminha estava acordada. A medicação já me havia afastado dela imensas vezes e haviam passado mais de 6 meses desde que lancei o alerta de pânico… bem mais… Dada a distância, tinha notícias pelo meu Pai.

Senti-me cobarde. Todos os dias pensava nela, todos. A moldura da sua fotografia fez parte da primeira leva de roupas e mobílias para a minha casa… Todos os dias a via, todos os dias me recordo.

Vi-a surgir no quintal, perto de alguns velhotes que me observavam à distância e demorei alguns segundos a reconhecer aquela que foi o pilar, que criou, apoiou e do seu jeito mimou os que amou. Demorei alguns segundos a segurar os joelhos e a evitar descair num choro desamparado… Apeteceu-me chorar como um animal ferido até esgotar a dor. Ela sai e olha através de mim, num andar a passos juntos, passinhos que só posso comparar ao andar sincronizado de um pinguim, mas sem a imagem composta deste. Estava assustadoramente magra e havia perdido o brilho ao fundo dos olhos. Tive esperança. Perguntei-lhe se se lembrava de mim (a neta, a única menina, a menina dos seus olhos – a pergunta por si só já respondia ao que eu mais temia). Respondeu num palavriado atabalhoado um nome que começava ou tinha algures pelo meio um “L”. Segurei as lágrimas e tratei de olhar bem para ela.

Estava uma senhora muito mais nova ao lado que entretanto ficou curiosa e me perguntou: “É familiar?”

Ao que a minha avó responde sem meias medidas:”Não!”

Poucas coisas na vida me partiram o coração como este momento, e a memória por si só é tão dolorosa que continuo a tentar lê-la como se fosse a história de outra pessoa. À senhora que estava naquele dia de Verão ao lado da minha avó, da minha princesa, respondi que era neta. Senti-a triste por nós e pela minha perda. Eu já não existia na vida de uma das pessoas mais importantes da minha vida.

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Estava a terminar de escrever algumas coisas online antes de sair para o voluntariado, enquanto pelo canto do olho olhava a rapariga que falava na tv. O telemóvel toca e pensei não atender porque estava com pouco tempo. No momento seguinte veio-me à memória a imagem do meu Pai e da minha Avó e aí soube que algo estava errado. Atendi a perguntar por ela e a demora de um silêncio engasgado respondeu-me antes das palavras.

Hoje dia 18 de Fevereiro, faz uma semana desde que se apagou a última luz no corpo daquela que foi um dia a minha avó. Foi um luto prolongado que alguns de nós fizeram após o avançar galopante da doença.

Se em algum lado me estiveres a ver, espero que saibas que fiz o que me ensinaste e que lamento a tua ausência e o não conheceres o teu neto e os teus (ainda por vir) bisnetos, com mais prejuízo para o ser limitado e egoísta que sou, do que para ti que ao final destes anos encontraste paz.

Até um dia destes.

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