Carta ao nosso Primeiro

Houve em tempos um jovem casal que vivia numa pequena cidade. Viviam tempos difíceis, no entanto, com alguma ginástica e esforço conseguiam colmatar as dificuldades e viver com alguma dignidade. Pensavam eles que essa pequena cidade, localizada num pequeno país, dividido entre a esperança, frustração e apatia, iria ser um dia, um lugar para crescer e criar os seus filhos.
Num desses dias acordaram e descobriram que o governo que guiava o seu país e as forças políticas associadas haviam perdido a razão e a noção da realidade. Aumentaram os impostos sobre bens de primeira necessidade, jogaram para a rua pessoas que sempre fizeram pela sua vida, encareceram electricidade, água, gás e mataram de fome quem nunca precisou de pedir.
O jovem casal deprimiu com esta situação. Depois de anos a estudar, a procurar um emprego, a sujeitarem-se a todo o tipo de trabalhos para sobreviver e a tentar numa luta inglória juntar dinheiro para um dia poderem ter um filho  e poderem casar… o jovem casal desistiu desse país. O jovem casal desistiu de Portugal.
Os governantes do meu país perderam a noção entre a realidade do esforço e o esforço  empurrado para a miséria. Retiram-nos a dignidade e dão-nos cada vez mais a direcção de caminhos ridículos a seguir. O meu país envergonha-me.
Não me importo de fazer esforços para o bem comum, nem tão pouco para ajudar terceiros… Agora aumentar o imposto sobre a eletricidade e o gás, que são produtos sem os quais uma família não consegue de modo algum viver com dignidade, é ridículo. Portugal, acorda! É ridículo!
(Já agora) Coloquem os impostos sobre a carne e sobre o peixe. Sobre o pão e sobre o leite e matem os vossos habitantes. Matem-nos à fome! Subam os impostos aos livros, aos jornais, revistas e toda e qualquer cultura… matem-nos com ignorância. Estupidifiquem-nos! Se formos estúpidos será mais fácil explorar-nos! Façam de nós um país de estúpidos!
Matem associações de apoio social, matem escolas, matem autarquias, matem instituições de protecção aos animais, matem lares de idosos e creches… Matem as pequenas e médias empresas e engordem os grandes. Não vos percebo Portugal. Não vos percebo.
Subam os impostos ao álcool, ao tabaco, aos videojogos, aos canais de cabo, aos carros de luxo, as roupas caras, mas não as papas de bebé, aos medicamentos, a água.
Precisamos de viver e vocês, por nós eleitos, estão a matar-nos! Estão a matar esta nação. Estamos a adoecer por dentro, a deprimir, a ficar stressados e a apertar o cinto onde já nem temos calças!
Estamos sem fé, sem futuro e vocês vão perder-nos.
Diga-me sr. Primeiro Ministro: tenho 26 anos, quando o senhor não poder governar, quem é que vai conduzir o barco deste país se uma parte de nós não pode estudar e a outra que estudou vai para outros países procurar uma vida melhor?
Ganho 650€, tenho 26 anos, uma licenciatura, um carro com 10 anos e inscrevi-me agora num Mestrado. Viajei do Algarve para Braga para poder trabalhar e não sei se o meu contrato de trabalho temporário será renovado para um contrato definitivo, mas com estas condições, vocês estão a sufocar-nos!
Por favor…
Eu não quero ser obrigada a sair do país!

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