Acorda geração: “não há almoços grátis”

Acho fantástico ler mensagens do género: “Eu mereço, eu tenho direito, eu não me vou privar de nada porque sou a pessoa mais importante”… vindo de quem sempre dependeu de terceiros e nem por um minuto correu sérios riscos ou passou necessidade.

Acho fantástico que alguém tenha esta capacidade alucinante de viver alheado(a) da realidade quando famílias inteiras passam fome e inclusive quando um dos seus pais se encontra no desemprego… Acho fantástico uma pessoa achar-se no direito de dizer “eu mereço”, sem nunca ter feito nada para poder e ter direito de pronunciar essas palavras…

Culpas? Não sei de quem são. Talvez dos pais que tentam oferecer o que não tiveram quando mais novos. Talvez da pouca exigência da escola que evita reprovar os meninos para não causar traumas aos pobrezinhos… Talvez da sociedade e deste novo conjunto distorcido de valores. Não sei.
Sei que em momentos mais do que suficientes senti vergonha destes discursos.

Aos mais velhos, aos meus pais, aos meus avós com quem já não posso contar, à quem me criou e à geração entre a minha e a deles, peço desculpa porque sinto uma profunda vergonha destas pessoas que falam assim e que na sua maioria pertencem à minha geração e a geração mais nova… Sinto orgulho por pessoas como a minha melhor amiga Raquel Ferreira que estudou e trabalhou em simultâneo, e o curso que tirou é mesmo dela e não dos papás.

Sinto pena e esperança nos colegas que não encontraram trabalho na área mas que ainda assim continuam a esforçar-se e em muitos dos casos trabalham em áreas que nada têm a ver com o que estudaram. Ao menos sabem dar valor ao esforço e sabem que esse esforço não é sinónimo de derrota. Sabem que tudo o que vem de bandeja tem um preço. Sabem o valor das coisas.

Espero francamente que toda esta gente alienada acorde um dia, ganhe vergonha na cara, sangue na guelra, vontade de mudar o mundo e perceba que o futuro só depende deles.
A mudança não vai aparecer numa saqueta prateada que se verte para uma taça e se mistura com água. Acabou o facilitismo extremo. Tenham orgulho em procurar as próprias soluções. Sintam orgulho e façam questão de encontrar um rumo e orgulhar os vossos pais.

Aos meus pais um enorme, imenso e eterno obrigada por custearem os meus estudos até à licenciatura e pelo esforço para ajudar a comprar o velhinho carro. O resto ficará por minha conta. Espero poder um dia compensá-los com o maior conforto possível quando os anos assim o pedirem.

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2 thoughts on “Acorda geração: “não há almoços grátis”

  1. Vivemos um preocupante estado de negação da realidade. E o pior é que até muitos dos que tem responsabilidade no destino do país ainda não perceberam – ou não querem perceber – a tragédia em que estamos metidos. Ou, melhor, em que nos metemos.

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    • É novo por estas bandas! Kruzes Kanhoto, um gosto tê-lo(a) por cá.
      Pois é… Ao que parece sofremos de um síndrome de avestruz preocupante e que no meu caso me começa a causar alguma angustia e ansiedade quando constato esta triste realidade. Ao menos, no que concerne a politiquices, parece que pelo menos já assentaram ideias em relação ao monstruoso-Ego-dos-carris… mas sobre isso são outros quinhentos. O que quero saber é como, com este rumo, com o que se avizinha… como vai esta geração aguentar os cordéis deste país daqui a 15/20 anos?
      Cumps.

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