A VISITA

Já não havia a festa de outrora, nem o entusiasmo característico das visitas da neta. A única neta menina. Menina dos seus olhos. Nunca havia tido filhas e os seus rapazes haviam-na brindado com três netos. Dois meninos e uma menina.

Hoje, uma senhora, entrou na sala para a visitar e para lhe dar um abraço. Tinha passado algum tempo, mas muito mudou. A neta recordou, enquanto a olhava nos olhos, relembrou a última conversa, as palavras doces e o sorriso.

Agora não lhe viu o sorriso, não lhe viu grande expressão. Não estava lá.

Uma senhora que estava sentada ao seu lado perguntou:”É de família?”

A avó responde prontamente: “Não.”

Baixinho respondi à senhora simpática: “Sou neta.”

E ela lamentou com os olhos. E eu lamento com o coração.

Alzheimer é uma doença cruel que nos rouba aqueles que nos amam e sem que consigamos perceber o porquê, o tempo vai matando a pouco e pouco cada memória, independentemente de ser ou não feliz.

Contava com a minha avó, e com a sua forte presença para os momentos chave da minha vida. Em boa parte, por egoísmo, mas também porque a queria orgulhosa de mim e do que construí com a energia deles, dos meus avós paternos. Senti-a desistir quando o meu avô se foi. Agora sinto-a a ir-se na maré da doença e foi como se tivesse assistido a um cortejo funebre de alguém que ainda não faleceu.

Há alguns anos, ainda miuda, escrevi para um concurso um texto literário onde imaginei uma história para o momento em que uma neta perdia um dos avós. Na altura queria falar da perda e também pensava muitas vezes no momento em que isso podia acontecer. Foi uma história com floreados, despedidas sentidas e uma menção honrosa, por parte do júri do concurso.

Tenho saudades da mulher que me entupia com mimos e abria os seus grandes olhos claros para ralhar com o filho por isto e por aquilo. Sinto saudades dos dois. Dela e do meu avô que sempre fizeram de mim uma criança acarinhada e muito querida pelos avós.

Sinto saudades e é só isso que posso dizer.

 

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