Notas ao sucesso e sossego para Lenine

Um brinde ao reconhecido talento e sucesso dos amigos… e já agora, paz a Lenine, que até ele já merecia sossego.

“O mausoléu de Lenine foi ontem reaberto ao público depois dos últimos trabalhos de manutenção, realizados de 18 em 18 meses. O cadáver do fundador do Partido Comunista Soviético está embalsamado e exposto ao público na Praça Vermelha de Moscovodesde a sua morte, em 1924, mas esta pode ser a última oportunidade para os saudosistas do regime soviético ou os turistas curiosos verem o líder bolchevique.

Durante os anos comunistas, o monumento acabou por se tornar um símbolo da União Soviética e da persistência de Vladimir Illich Ulianov – o verdadeiro nome de Lenine – para além da própria morte. Em “The Immortalization Commision: Science and the Strange Quest to Cheat Death”, John Gray explica que o monumento fúnebre “era um símbolo público da continuidade da influência do líder falecido”.

Porém, uma larga maioria dos russos está disposta a deixar definitivamente para trás o passado comunista. Em Fevereiro, um inquérito do Centro de Toda a Rússia para o Estudo da Opinião Pública (VTsIOM) mostrou que 67% dos russos inquiridos preferem que Lenine seja finalmente sepultado. Os restantes consideram que deve continuar exposto junto ao muro do Kremlin por se ter tornado uma atracção turística, embora já não atraia as multidões que se amontoavam em frente à entrada, antes da dissolução do império soviético, em 1991.

Olga Ulianova, a última parente viva de Lenine, e grande defensora da manutenção do mausoléu tal como está, morreu a 25 de Março. O Partido Comunista Russo, hoje uma pequena formação política com apoiantes sobretudo entre os mais velhos e alguma juventude mais radical, defende essa opinião.

O grupo de defesa dos direitos humanos russo Memorial considera que a Rússia deve distanciar-se do passado comunista por não ser “um país de Lenine e Estaline, mas sim um país e um povo de Pushkin, Gogol, Tolstoi e Pasternak“, segundo o comunicado enviado ao Kremlin no fim de Março.

Tiago Ferreira Lopes, investigador do Instituto do Oriente, explicou ao i que não pode, apesar de tudo, generalizar-se essa opinião à Rússia rural, onde “ainda se vive a União Soviética com força”. Por outro lado, a população urbana, que é normalmente o objecto deste tipo de inquéritos, “quer fechar o capítulo da história soviética” e sublinhar que “a Federação não é a URSS“.

O fechar das portas sobre Lenine abre uma janela para que a história seja reescrita a seu bel-prazer por Vladimir Putin, primeiro-ministro russo e muito provável candidato às eleições presidenciais de 2012. A inumação do líder bolchevique “é um redesenhar da história de Estaline, que é mais favorável a Putin dentro de fronteiras”, defende Ferreira Lopes, que acrescenta que o ex-KGB “tem tentado limpar Lenine dos livros escolares e desculpar os actos de Estaline à luz da época”.

Os activistas do monumento propuseram ainda a proibição da negação por parte do governo russo dos crimes cometidos durante o regime estalinista, em que milhões foram mortos em campos de trabalhos forçados. Embora o grupo tenha o apoio do presidente Dmitri Medvedev, os comunistas criticam o documento, também publicado no website do grupo, afirmando que as propostas feitas ao governo podem violar o direito à liberdade de expressão e ignora os verdadeiros problemas do país. O vice -presidente dos comunistas, Ivan Melnikov, em declarações ao jornal “Kommersant”, referiu que sepultar Lenine “tem um enorme potencial de criação de conflitos” e “distrai a atenção do público dos verdadeiros problemas do país”. ”

Jornalista Sara Pereira

@ sara.belem@ionline.pt

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