O meu país não me quer por cá

O meu país convenceu-me durante anos que a solução residia no estudo, no canudo e que essa seria a janela aberta para um futuro melhor para mim e para os meus. Convenceu-me que esse canudo me daria o direito e a possibilidade de criar e sustentar a minha família e apoiar aqueles que amo com conforto, uma cadeira de baloiço e uma mantinha quente nos seus últimos anos de vida.

O meu país levou-me a crer que podia ser tudo, e ser capaz, e inovar e ser mais e melhor! E sei que sim, que nisso o meu país tem razão.

Anos depois, o meu país diz-me que já tenho sorte em ter um estágio onde posso praticar o que aprendi na faculdade. Já tenho sorte em ter como pagar as contas e em conseguir uma consulta no médico para daqui a dois meses. O meu país diz-me que tenho sorte porque comparticipa anti-depressivos mas que a reforma da minha avó não sustenta metade da medicação para combater os efeitos do Alzeimer.  O meu país não está preocupado com a minha formação. Todos os anos saiem para a rua mais outros tantos com o mesmo curso que eu para irem encher caixas de supermercado e fazer telefonemas em linhas de telemarketing, alimentando assim os números das comparticipações em ansiolíticos e anti-depressivos.

O meu país anda mais preocupado em tirar da boca dos seus para poder criar grandes estádios de futebol e linhas de TGV que muitos de nós nunca poderão pagar.

Ai o meu país, tinha tanto potencial! É uma “casa” de gente bonita, simpática, apreciadora dos dias solarengos e dos bons vinhos, no entanto, estamos tristes, desapontados e sem força.

O meu país não me quer por cá.

Vera Inácio

Fevereiro de 2011

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