Será Ele/Ela?

E é neste momento que temos a certeza.

Um dos grandes mistérios da humanidade reside na escolha ou na química que une os indivíduos como casal. Após estudos, documentários, livros, posts, texto e mais texto, teoria e mais teoria, apenas uma certeza persiste… E essa é a de que está tudo lixado  no momento em que nos sentimos dissolver e os joelhos ganham a consistência de pastilha elástica mastigada no verão.

Não é quando pensamos que queremos ter algo. Não é quando é feita uma birra porque o jantar não correu bem e as flores não eram aquelas e os chocolates deviam ser suiços e não belgas. Não é quando olhamos para algo e pensamos: Tem de ser e vai ser meu! Isso sente-se em relação a sapatos!

O Amor, esse desgraçado pedante que nos rouba a concentração, seca a boca, faz transpirar as mãos e transforma a criatura mais coordenada deste mundo numa corrida de pés atados enquanto a mesma gela tipo estátua a olhar para o horizonte, com um fio de baba viscoso a correr plo canto da boca (ou o que restava de baba)… Tira-nos as certezas, as noites de sono e estupidifica sem igual!

O Amor leva-nos a insultar quando queremos elogiar, por simples pavor de mostrar ao outro que é ilegítimo proprietário daquilo que mais alegrias e tristezas nos pode proporcionar.

No final de contas, pode levar o mais são aos píncaros ou fazê-lo esbardalhar-se no chão como um tomate e mesmo assim continuar a enclausurar reféns.

O amor esconde-se e é matreiro como uma raposa, esquivo como uma enguia! Quando menos esperamos é ele que nos apanha e morde, amassa e faz as entranhas da vítima em papinhas de merda!

O Amor justifica isto tudo com alguns minutos deitados na relva a falar de tudo ou só a gozar a posição de conchinha, que cá para nós, deve ser a par da muralha da china uma das maiores protecções alguma vez  desenvolvidas e citadas em qualquer suporte digno de ser apelidado de literatura.

O Amor defende-se com os olhos dela, com a gargalhada dele, com os momentos em que a multidão desaparece…

O Amor é um grande filha da mãe e eu pergunto-me onde andará esse desgraçado escondido? Desde que me lembro há quem o procure sem cessar…

Boa sorte a quem o procurar.

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…“Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfilando …
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando …

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu … olhou … e riu …

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados …
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu! …”

Florbela Espanca, in “Livro de Mágoas”

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