O sítio perfeito.

Tenho dias em que ando, minuto atrás de minuto, hora atrás de hora… conduzo… estradas e mais estradas… litros de gasolina… nos últimos tempos, invariavelmente o meu rumo é quase sempre o mesmo bairro. O mesmo livro. Uma das cadeiras do café ou do jardim.

Sento-me sem nada em particular em mente. Sento-me e ali fico. O silêncio e o vazio da minha casa andam a atormentar-me. Sento e vejo as crianças a correr de um lado para o outro, debaixo deste ameno entardecer.

Ontém pedi um café. Sentei-me e abri o livro. Li sobre algo que me acontece muitas vezes. Vezes demais. Li sobre as horas, as vezes, o tempo que passo a ser envolvida na vida dos outros e li sobre uma pessoa que chegou a não ter vida… não pela solidão, mas porque na grande parte das vezes as pessoas dirigiam-se a ela para descarregar os seus problemas, sem sequer se questionar a partida sobre se essa mesma fonte de desabafos teria algo a dizer. Não é bom dizer isto. Detesto pensar assim, mas as vezes fico cheia dos problemas dos outros, e quando isso acontece, isolo-me, fecho-me em copas, bebo os meus cafés sozinha. Pelo simples facto de não conseguir dizer “cala-te um bocado, estou a rebentar, também preciso de falar… pior, não preciso de falar, preciso de alguém que me oiça. Que me oiça mas que oiça de modo a perceber o que estou a dizer. Alguém que “fale a minha língua””.

Cansa-me tanto o constante lamuriar, a constante ladainha e o constante choradinho. Típico! Está tudo tão mal. A crise! O dinheiro! O amor! 90% dos problemas das pessoas de quem gosto resolviam-se se estas abrissem os olhos. Se tivessem coragem. Se lutassem e deixassem de se queixar. Melhor, algumas delas nem precisam desse esforço todo, bastava acordarem de manhã, dirigirem-se à janela, respirar fundo e forçar um sorriso. Todos temos direito a estar tristes. A desabafar. A ter os nossos momentos. Mas passar os dias a falar dos males do mundo, não é desabafo, quanto muito será depressão, e isso é tratavel! A sério, sei do que falo. Bolas… é tão cansativo viver 24 sobre 24 com uma pessoa que nos suga a energia pelo simples facto de ser incapaz de ser feliz e de cada vez que abre a boca o faça para emitir um comentário negativo acerca de algo.

Hoje tomei café no sítio perfeito. À direita um parque cheio de crianças ás gargalhadas, mesmo ao lado de um campo de futebol. No estacionamento do campo de futebol decorriam corridas de mini-motos. Gostei da animação. À esquerda, no parque radical, garotos mais velhos brincavam com patins e skates, saltavam e faziam manobras.

A vida é dura e ninguém me avisou que ia ser assim. Ninguém avisou ou vai avisar estes pequenos. Pelo menos, não vão conseguir avisar com  o impacto que queriam. É impossível, temos que ver com os nossos olhos e sentir na pele, mas, ora bolas, será que isso é motivo para desperdiçar o facto de vivermos num país lindo, com um ambiente fantástico? Os nossos políticos, de grosso modo, são uns idiotas, ponto. Temos problemas (quem não tem)?

Hoje sentei-me, bebi o meu café, li algumas páginas do meu livro e pensei: “Um dia vou viver neste bairro.” Acreditem. Sonhar é tão bom e enquanto tiver tempo e espaço para isso, vou guardar alguns minutos por semana para o fazer. Sonhar.

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5 thoughts on “O sítio perfeito.

    • A m*rda é que comanda para um caixão… mas que se lixe… Ando sonhar acordada como se não houvesse amanhã, nem sei como não atropelei ninguém.

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  1. E que tal andar mais a pé praia/jardins e afins?

    Mas eu sei o que é pegar no carro e andar por aí sem destino… queimar gasóleo.

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  2. Também sei bem o que isso é. É pegar no carro, ir àquele sítio (a um dos), parar o carro e…

    Começa é a tornar-se complicado… com o verão, tudo fica “crowded”.

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