o amor enlatado


“Detesto o amor enlatado. Aliás, por definição detesto tudo o que vem enlatado, mas no caso do amor ainda detesto mais. O amor enlatado é aquele que se processa industrialmente e traz corantes e conservantes, exactamente como umas salsichas ou sardinhas em tomate. Abrimos, lambemos e até podemos gostar do sabor. O problema é que nunca há surpresas. É sempre aquilo.
Acho que a Barbie e o Ken são os grandes culpados disto tudo, não só por serem dois bonecos estúpidos mas, lá está, por serem igualmente estúpidos. E não é a estupidez que me chateia, é essa igualdade conceptual. Antes de os lambermos já sabemos ao que sabem, tal e qual como nos produtos enlatados. A Barbie é uma miúda afectada que cresceu a ouvir dos mais velhos que era muito bonita, principalmente nas festas de aniversário para as quais os pais, ambos funcionários públicos razoavelmente instalados, só convidavam os filhos dos casais que consideravam pessoas de bem. O Ken era um puto desses, um gajo horrível e convencido, portanto uma pessoa de bem que tratava os pais por você e não saía de casa quando tinha acne.
Não acredito que algum dia a Barbie se tenha realmente apaixonado pelo Ken ou o Ken pela Barbie. Acho apenas que aceitaram a ideia do amor enlatado. Ele tinha tudo para ser namorado dela e ela dele. Tudo, num contexto meramente mediático, entenda-se. De resto nada, é só isso. Gostava de viver num sítio onde bonecas magras de grandes cabelos loiros viessem com um namorado preto do Bronx ou um totó como o Ken viesse com uma namorada gorda. Mas nunca vêm. A indústria não conhece o poder do Amor.
Hoje sentei-me ao lado de dois adolescentes num bar. Eu só queria beber uma cerveja e não pensar em nada durante alguns minutos, mas acabei a ouvir um casalinho enlatado a gozar com um casalinho não enlatado que nem sequer estava presente. Não tem nada a ver, dizia uma imitação da Barbie cheia de certezas, e ele concordava afirmativamente com a cabeça enquanto completava a tese que explicava porque é que a relação dos outros “não tem nada a ver”. Ela é mais alta do que ele, ele veste-se mal e ela até veste mais ou menos, ela é rural e ele urbano. Tive pena deles mas depois zanguei-me. Mandei-os calar. Eles calaram-se.
Tornei a ter pena deles. Tenho sempre pena do amor processado. Estes putos ainda acham que a base do sucesso para uma relação é ambos serem igualmente bonitos. Nem chega ambos serem bonitos, têm que ser igualmente bonitos. Espero que se casem rapidamente, se chateiem rapidamente e divorciem rapidamente, a ver se aproveitam na vida tudo o que o amor não enlatado tem, e esse tudo é o improviso, é aquilo que não se sabe como vai ser. É que o amor é incompatível com regras e, agora que penso nisso, talvez seja incompatível com este mundo. Não faz mal, mudemos o mundo.

Bagaço Amarelo, em “Não Compreendo as Mulheres

Ironia ou não, este senhor acaba por compreender ou se fazer compreender melhor do que muito boa gente e como já disse de outros, é bom saber que não estamos no mundo sozinhos.

Sobre mim e sobre o motivo de ter roubado descaradamente este texto do Sr.Bagaço Amarelo: Já gostei de rapazes bonitos, feios, altos, baixos, gordinhos, magrinhos, morenos e loiros… mas só quando gostamos de alguém “diferente” é que podemos sentir o peso destas palavras. Farta, fartinha de amor enlatado. Quem o quer, que o engula de um só trago.

Eu passo.

 

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