Banco de jardim

Saí a largos passos em direcção a casa, subindo aquela rua quando no meu mais intimo desejava descer. Ouvia o meu calçado e o barulho característico das botas na calçada portuguesa a ser intercalado com assobios de vento. No fundo da rua que agora começava a espreitar a esquina, podia facilmente visualizar as folhas que mesmo a meio da noite, banhadas pela luminosidade do candeeiro, desciam em largos caracóis, das altas árvores, repousando nas pedras escuras.

Senti-me impotente, sem conseguir fazer o que seja se mim, quanto mais dirá de tudo o resto. Desejei, eu… a criança que há em mim, que vive rodeada de nuvens de algodão, arvores, flores de cores garridas, aromas adocicados de caramelo e largos sorrisos disparatados sem motivo, sorrisos que só os tontos conhecem e sabem soltar… eu, a criança, esse eu, desejei ser um passarinho e desaparecer. Desejei chegar a casa e encontrar-te sentado no cadeirão de jardim, no centro do relvado, á espera da minha presença. Desejei ter alguns minutos para trocar algumas palavras, mesmo sabendo que apesar de todos os esquemas, truques, partidas e artimanhas, desta vez não ia ter coragem.

Cheguei á minha rua. Jaziam cogumelos soltos na relva, depois de terem sido pontapeados por crianças, talvez. Sólido e frio estava o banco de jardim. Inerte.  Sentei-me no mármore em frente de casa e fiquei a respirar fundo. Suspirei tudo o que tinha a suspirar. Longos minutos. Apesar das amplas divisões da casa, tudo me parecia demasiado asfixiante e o sentimento de claustrofobia assolava o meu pensamento. Senti-me cansada. Senti o frio. Abandonei o banco que repousava sobre a relva verde, salpicada de cogumelos e emoldurada por aquela noite azul profundo e pelo vento que cheirava a ramos quebrados e folhas secas.

Senti-me de novo com 15 anos e jurei que adormeceria e esqueceria estes disparates ao aterrar na cama.

O vento assobiou mais uma vez. Debaixo da luz dourada do aquecedor, ignorei aquela nota soprada. Adormeci.

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2 thoughts on “Banco de jardim

  1. Abanões à parte…devo te dizer que (enfim, não é que mereças) gosto desta versão 2.0 da Vi…desde que não tenha que desinstalar a versão anterior, if you know what I mean…

    Beijocas repeniquérrimas

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    • Não mereço pk? lol… Se achas esta versão “melhorada”, ainda não viste nada. 🙂
      Mas a versão anterior continua cá. Sempre. Aways me… 🙂

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