Kico Bomba

Bem pra começar adoro estar no sofá a digerir o peixe no forno que acabei de debulhar, logo a seguir a isso, gostava de ter menos dois terços de pelos loiros no corpo. Tendo em conta que sou morena, a coisa fica no mínimo estranha. Uma espécie de degradeé ou casaquinho de peles. Mas eu passo a explicar, fui ver o primeiro amor da minha gata (amor não correspondido, os machos andam numa fase muito complicada da sua existência).

O Kico bomba, como assim foi graciosamente baptizado, é um persa em tons amarelos e brancos que nasceu com um forte sentimento de propriedade em relação aqueles de quem gosta e que francamente, acha-se o “dono da paráda”. Suficientemente egocêntrico para nem atender a qualquer chamamento incólume da dona ou outras almas que queiram gozar da sua companhia.

Digamos também que a minha Pantera não tem propriamente boa pontaria. Um quando podia não lhe ligava (Kico), o último, liga-lhe mas não consegue (gato la do sítio), é castrado.

Haja sorte, ó vida triste.

Sim, os machos da vida da minha gata já só servem para estatística, visto que o cruel bisturi veterinário lhes amputou o ultimo reduto de masculinidade…

Mas isto tudo para dizer que hoje, tal como ontem, quando fui verificar se o Kico ainda respirava (a pedido da sua dona,  Chiqui para os amigos, que foi de fim-de-semana), ao abrir a porta, não foi preciso mais do que um sussurrar do seu nome. Algures ao cimo da escada, surge o nosso “Garfield tuga” num miado descompassado entre a euforia e a depressão. Ainda não consegui compreender a discrepância de miados deste rapaz. Suponho, no entanto, que se o dito menino soubesse vocalizar palavras, provavelmente o nosso dialogo teria sido algo do género:

Eu – Kiko!!! (chamamento)

Kiko – Bolas! Finalmente! Alguém!!! Hei, quem és tu? Nem quero saber… ESTOU AQUI!!! (isto já a descer as escadas a galópe)

E- Então menino, tas a aguentar-te?

K- Bolas, nem tens ideia! Já corri os quartos todos, a sala, os WC’s e realmente estes gajos deixaram-me! Acreditas nisto?! Achas normal?! (Olhar incrédulo chorão e tom de ron-ron constante)

E – Pronto, calma, vim só dar uns miminhos e ver se comes…

K – É pá, não quero saber, dá-me colo e cala-te… (ron-ron excitadissimo)

 

Já no andar de cima, na cozinha, a comida de lata, frigorifico… por esta altura o bicho já estava no chão e roçou tanto ou tão pouco os meus pés que das duas uma, ou troquei as havaianas por aqueles chinelos de quarto medonhos com pon-pons ou então ando com algum distúrbio capilar na zona dos pés… Até aos joelhos fiquei forrada de pelo de gato…

A alimentação foi outro drama… Se o desgraçado não ficou estrábico, foi um milagre. Isto de comer sofregamente para poder olhar para o lado com medo que a minha pessoínha desertasse, também deve ser qualquer coisa. Despedi-me com um sonoro “Até já”, que ele deve ter levado a peito, pois quando se apercebeu que me dirigia para a porta, voltou-me o rabo e seguiu rumo para a latrina. Claramente num:

”Põe-te nas p*tas que eu fico bem, estou a c*gar pra ti, és igual a eles!.”

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