O amor…

 Lembrei-me de uma coisa que já ando a questionar há algum tempo. O que é que se passa?

As pessoas vêem um sorriso, duas palavras simpáticas, meia dúzia de dias de cumplicidade e julgam que é para sempre. O que é que se passa? Existe uma falta de esforço, de valor, de reconhecimento daquilo que realmente importa, que quase  fico zonza com o excesso de informação inútil com que tenho de conviver. Será que precisamos de um manual para diferenciar o ouro do latão ou até das purpurinas? Brilham, ok…mas e o resto?

Gostas? Gostas porquê? Essa espécie de ajuntamento, de esperança de que o amanhã seja melhor do que ontem, sem borboletas no estômago, sem euforia, sem sal. Que fobia, hoje, que medo da solidão. Não é coisa de uma ou duas pessoas, é uma questão social. Somos incapazes de sentir nos ossos a solidão, precisamos de tudo e de nada. Precisamos, nem que seja de uma entidade divina para nos livrar da profana e temida solidão. É assim tão difícil?

Mais difícil é construir com palha amarela o que deveria ser ouro, e insistir em tecer vidas sobre o vento. Criam uma espécie de salas de espera sentimentais, até que apareça aquilo que realmente procuravam, mas se não encontrarem, não há problema, ao menos não ficam sozinhos(as). pares

Que raio de teoria! Que raio de teoria. Que raio de falta de valores e diferenciação entre o certo e o errado.

Lembro-me sempre deste texto. Miguel Esteves Cardoso que me perdoe, mas depois do Cemitério de Raparigas não me atrevo a comprar livros dele… são gostos. Fica aquele que me conquistou  “Elogio ao amor”.

 

“Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”

 

In Elogio ao Amor, de Miguel Esteves Cardoso

 

Era isto que eu queria dizer… Alguém me percebe?

 

 

 

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8 thoughts on “O amor…

  1. Já há muito percebi que é assim: não se vive o amor; ten-se medo.

    Este comentário é apenas um teste para ver segue. Tentei duas vezes antes e não deu.

    ***

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  2. Hum?! bem visto sim senhor. Mas não deste essa resposta a ninguém que te pediu namoro, pois não? Isso iria marcar o desgraçado para sempre.
    Brincadeirinha.
    Adorei o blog.

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  3. Farroscal II, não dei, mas devia ter dado… lol… o problema é que depois ficaria a pensar se sim, se não.. e se.. enfim, o ser humano é um bicho dificil! 🙂
    Obrigado pelo comentário
    BJ**

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  4. Oh Vi…mas que grande bom-senso! Começo a pensar se as ondas hertzianas que emanam do meu cérebro de gajo atravessam o país de costa a costa e vão parar aí ao sul. Ainda no outro dia tive uma conversa sobre isto com outro gajo, um amigo meu e questionavamos como era possível passarmos de um mísero 8 para um extravagante 80. Há coisas do caraças!!
    Bem visto!
    Kisses ***
    P.S. E o ser humano não é um bicho dificil, nós é que complicamos esta porra toda!

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  5. Oh Gajo, não sei não… As vezes sinto que nasci na década errada. Não que isso condicione o facto de ser uma menina, mas em alguns dias, é muita “alarvidade” junta para a minha cabecinha.
    Ás vezes complicamos, outras nem por isso…
    **
    PS. Deixa-te dessas cenas de gajo presunçoso, porque ás tantas és tu quem anda a captar ondas vindas do sul… 😉

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  6. Na década errada? Qual seria então a década correcta? O facto de nos sentirmos deslocados, muitas vezes, só nos torna “specials”…
    Estás portanto a dizer que eu ando tipo antena parabólica…? 🙂 Também…também…
    Presunçoso…humpf! 🙂
    Beijos ***

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  7. Isso agora… a minha pessoa é um pequeno puzzle… Isso do sermos especiais, depende dos olhos de quem vê, muitas vezes somos apenas números… já me incomodou mais… mas sobre isso ainda tenho de tirar uns minutinhos para escrever.
    Antena parabólica!? só tu Gajo, só tu…lol 🙂
    Beijinhos, daqueles 😉

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