A volta ao Brasil em 40 dias

 

Dito assim nem parece que aconteceu, nem parece ter sido real. Eu “dei a volta ao Brasil em 40 dias”! Não me sinto privilegiada, nem diferente, como costumam dizer ou falar os colegas, amigos e conhecidos com quem falo. A minha vida não mudou grande coisa por ter feito esta viagem, mas é a primeira vez que penso nisso a sério: contar um pouco do que foi para mim o intercâmbio no Brasil.

Parece que a partir do momento em que as malas embarcam no ‘check-in’ e passamos os portões de embarque, somos transportados para uma realidade totalmente diferente. Não digo que seja um sonho, nem é, para mim, um mundo divinal. Bem longe disso. Acho que esta foi a realidade mais terrena que conheci até hoje. Cada pessoa absorve de forma muito particular as vivências de uma viagem e, apesar das vistas fantásticas e dos sítios diferentes que conheci na companhia dos meus colegas, nunca terei palavras suficientes para descrever o nome “Brasil”. Salvador, Porto Seguro, Belo Horizonte, Ouro Preto e Rio de Janeiro foram as cinco cidades que visitei. As duas primeiras são cidades do Nordeste, típicas pelas suas praias, pelo sotaque baiano, pelos vendedores de bijutaria, artesanato, camarão, caju e todo o tipo de vestimenta possível de ser envergada durante a época balnear. Porto Seguro, em particular, é o postal de um lugar cheio de charme pela sua beleza quase selvagem. A típica praia paradisíaca localizada em nenhures, pincelada de palmeiras, cabanas de madeira e diversões para os turistas. O centro da cidade está reservado a quem se renda aos transportes públicos, como o ‘ônibus’ e o táxi, ou a quem alugue um carro. Mas nada se compara aos bancos rígidos, ao achincalhar, à alta velocidade, nem ao efeito provocado pelo asfalto degradado, só proporcionado pelo ‘ônibus’. É, no entanto, um sítio tão terreno que custa acreditar, que de um momento para o outro, passemos do paraíso turístico para o bairro mais característico do nosso imaginário.

Onde a cada esquina e a cada carro que passa as demonstrações de fé se repetem. “Deus Ama quem confia”, “Deus protege”, Deus isto e Deus aquilo, são uma constante nos carros, nas casas, nas lojas. Não sei se seria uma fé escondida por detrás da humildade do sítio ou se o sítio se escondia na fé, isto por ver a quantidade de demonstrações de adoração ser proporcional ao baixo nível de vida.

Belo Horizonte (BH), por outro lado, não esconde as suas qualidades ou defeitos. É uma cidade inacreditavelmente grande comparada com qualquer coisa que possa existir em Portugal.

Subido o mirante, descobrimos porque é que Santo Papa afirmou uma vez, em visita a BH, que aquele era realmente um Belo Horizonte.

A imagem que se estende é a de um recortado de prédios com pequenas fileiras cor de tijolo que se difundem atrás de montes, entre raios de sol e a névoa à distância. Não é especialmente deslumbrante, mantém, no

entanto, o charme do design da cidade e da grandiosidade de tal construção.

A BH dos rodeos, das favelas, das misturas de raças, credos, classes sociais, modos de vida, é um pequeno espelho mineirinho de quase tudo o que neste momento significa para mim o verde e amarelo. Até o menino

sentado a par do semáforo conta a história de uma cidade onde existem pessoas muito pobres, algumas que até estão confortáveis na sua condição e outras que são … ricas.

O carinho e a vontade de receber de muitos (de quem bate uma saudade pequenina, bem lá no fundo) era o contraponto da falta de jeito mal disfarçada e do desleixo de outros.

Nada disto me faria hoje renunciar à experiência de viajar com três pessoas totalmente diferentes de mim, que colaboraram sem hesitar no projecto de entupimento de churrasco e doces proporcionado pelo nosso querido restaurante “Farroupilha”. Um sítio que ficava a caminho da FUMEC (universidade privada – bem paga), numa rua onde quase fomos atacado por um travesti que se sentiu insultado com um desabafo “cordial” que tivemos em resposta ao quase atropelamento da Maria numa passadeira. Outro dos nossos pontos de referência em BH era a Savassi. Um sítio da cidade totalmente elitista, frequentado por gente endinheirada e onde frequentemente

encontrávamos alguns colegas da FUMEC.

Era também o sítio mais perto de tudo e de todos, inclusive de refeições planeadas à última da hora, telefonemas, farmácia, compras, cinema… O contraponto deste quadro era a surpreendente feira Hippy! Onde víamos de tudo, desde pratos típicos, pastéis (salgados), milho cozido, coco verde fresco, malas, sapatos,

bijuteria, recordações, artesanato, roupa, tudo a perder de vista e a encher uma avenida

inteira uma vez por semana. Depois da visita a Ouro Preto e de volta a BH, conheci um sítio muito especial chamado parque das Mangabeiras, onde passeiam pequenos macacos, os micos (que

neste momento devem ser diabéticos, devido à quantidade de açúcar que ingeriam nesse

dia), e mais uma série de animais que jamais tinha visto ou ouvido falar. Os micos são engraçados,

curiosos e até assustadores (na sua confiança como s visitantes do parque). Sobre o Rio de Janeiro, pouco tenho a acrescentar. O Cristo é grande, ponto. E cá entre nós, aquilo de ser maravilha tem cunha

do pai, e pode agradecer-lhe todo o postal que o rodeia, é lindo.

Copacabana é Copacabana. Indescritível, imensa, com muita areia e muito sol, com muita gente na praia, com rapazes e raparigas a jogar futebol de praia, com recém-casados de 20 e 80 anos a passar a sua lua-de-mel…

Ipanema também não é muito diferente. Fica no lado oposto da cidade, mas é conhecida pelas garotas cruéis que só tem como objectivo a “grana”.

É o Brasil no seu melhor. Onde os “moleques” nem tentam sabotar a vida do turista, por saberem que na favela vai estar alguém de tocaia, à espera de uma oportunidade de os castigar por afastarem quem traz dinheiro.

“Oi moço…”, “oh txia dá um trocádo pá mim”, “ocê é americana?”, “Italiana?”,”Hmm, Espanhola?”, “Um djia vo vive para portugau”… vão ser sempre expressões a passar no rodapé do meu imaginário. O estalar do coco a ser arranjado, o cheiro do milho cozido, o paleio dos vendedores (e o ainda maior choradinho que fazíamos ao negociar algum produto), são recordações de algo que já lá vai. Fica para lembrar a quem quiser saber, que o Brasil é um sítio à espera de ser descoberto (sem usar uma expressão que associe de algum modo a colonização e que cause a algum brasileiro tanta fobia, como as piadas sul-americanas causam ao lusos). Os mais profundos agradecimentos a Ana Carolina, Izabella, Marcela B., Sérgio Lucarelli e todos aqueles que tem um cantinho especial no coração destes quatro “portugas”

 VI

EstaJornal nº15 (7.11.07)

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