Um dia da vida dos Bombeiros Municipais de Abrantes

Pouco passa das nove da manhã e o primeiro turno de bombeiros já tinha saído para serviço no exterior.

Os últimos carros abandonam as instalações dos Bombeiros Municipais de Abrantes, debaixo do foco dos dois olhinhos escuros de Agulheta, o cão que os bombeiros resgataram de um futuro previsivelmente pouco risonho quando o encontraram abandonado. Este é um início de dia sem problemas de maior.

Regra geral, o quartel funciona com dois grupos de equipas, as de intervenção e as de saúde. Uma equipa de dois elementos no INEM, dois elementos na reserva, seis no piquete, um chefe de serviço e um operador central. Esta realidade altera-se no Verão, época alta dos incêndios, em que as exigências de pessoal duplicam.

Este serviço, o primeiro do dia, engloba uma componente formativa, afirma o chefe José Luís Lopes, que coordenou durante toda a manhã o procedimento de troca de lâmpadas do Pavilhão Municipal do Pego. A acústica do imenso pavilhão faz ressoar o eco das vozes dos seis elementos da equipa, que circula com a escada e vai trocando as enormes lâmpadas danificadas, uma a uma. Este trabalho não foi apenas uma questão de serviço à comunidade, funcionou também como aula para manuseamento do equipamento. Já após a hora de almoço, enquanto os “carros vermelhos” repousavam no parque e no pavilhão, um incidente inesperado faz com que a sirene volte a chamar os bombeiros.

Deste feita, um Aixam, veículo ligeiro de condução autorizada com licença de ciclomotores, que entre as paisagens verdejantes dos arredores abrantinos, deixou os seus dois passageiros encarcerados, depois do

confuso acidente. Após o transporte dos dois feridos para o hospital, desencarceramento e limpeza da estrada, o funcionamento da via voltou à normalidade.

O esforço e o trabalho de equipa são necessários e criam uma proximidade e uma confiança quase familiar entre o grupo. Cada um tem a sua função e formação específica. Esta é uma realidade criada para uma boa organização e preparação de futuras emergências. Quando um bombeiro sai para um serviço, sai a saber o que

vai fazer nessa situação, certifica o comandante António Manuel. Os homens e mulheres que não entraram por influência ou história de família, deixaram-se levar pelo “bichinho”. Rita Teodoro, de 33 anos é auxiliar de serviços gerais e conta já com 13 anos de casa, e alguns à espera de reclassificação. A bombeira, que praticamente cresceu no quartel, diz que a sua grande influência foi o pai, que já se reformou, e o irmão. “Esta

é a nossa casa, porque a maior parte do tempo é aqui que nós estamos”. A família ressente-se um bocado. Com duas filhas, uma menina de seis anos e um de apenas 15 meses, garante que a sua situação é muito diferente da situação de alguns colegas mais novos ou sem família constituída.

Apesar de o filho mais pequenino ainda não possuir a real percepçãodos acontecimentos, Rita Teodoro confessa, emocionada ao falar dos filhos, que a filha mais velha muitas vezes fica a chorar.

Quando classifica como boa a profissão, também não encontra dificuldades em exemplificar situações de casais e pessoas que não conseguem enfrentar a complicada vida de bombeiro. O ordenado de 412€ e o tempo

dispendido levam muitas vezes a uma grande instabilidade.

Flávio Areias, tal como a colega, é auxiliar de serviços. Com 22 anos de idade e sete anos de serviço, resume os bombeiros em poucas palavras: “Muito estômago, muito tempo livre, pouco dinheiro e muito trabalho”. O

jovem conta que por vezes acontecem situações curiosas, “como por exemplo o caso de dois bombeiros que estavam aqui, fizeram a recruta e foram para o serviço, um incêndio. Avisaram que iam tomar banho a

casa e até hoje estamos à espera deles…”. “Nós, na recruta, não vemos as situações que por vezes vemos no INEM, na reserva ou nos incêndios” – sublinha.

À espera de reclassificação para bombeiro há dois anos, Flávio sentiu-se atraído pela profissão graças ao gosto pelo serviço de emergência. “Bombeiros, para mim, é emergência!”. No entanto, tenta equilibrar o

orçamento fazendo três escalas de serviço rotativo, o que o deixa com pouco tempo para a vida exterior ao quartel, em especial a vida pessoal, “namoradas”, amigos e família. “É difícil conjugar porque ou não podemos

sair, ou não podemos estar com a família. Natal, ano novo, anos, é tudo passado aqui”. “As namoradas de bombeiros que têm de aguentar, muitas vezes não aceitam ficar para segundo plano”, afirma o jovem.

Mário Baeta, recruta de 28 anos, decidiu este ano entrar para os bombeiros por influência dos amigos, mas também por um gosto pessoal que existia já desde criança. Quando questionado sobre a vida pessoal, o recruta revela-se consciente das dificuldades da vida de bombeiro e acredita que “com um pouco de sacrifício e vontade consegue-se tudo”.

Esta é a realidade escondida de um grupo de profissionais que são, na prática, “anjos da guarda” da comunidade, abdicando muitas vezes da companhia dos seus para auxiliar o próximo.

Vera Inácio

Publicado no Estajornal (ed.nº11)

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