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Jornal de Laboratório da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes

Vir para Portugal era “voltar para trás”

Eurico Hernâni Covas é emigrante há 25 anos em França, onde trabalha como guia-turístico. Tem família em

Portugal e viaja, de tempos a tempos, para visitar os seus entes queridos. Voltou de Angola em 1975. Passou por Portugal, mas não gostou do estado do país. Por isso emigrou.

Ao ser questionado sobre os motivos da emigração para França, Eurico, num desabafo, lamenta ter encontrado em Portugal um país em que a forma de pensar continuava a ser muito limitada. Não encontrou dificuldades na emigração, porque era uma época de grandes mudanças em França. Talvez fosse mais difícil uma mudança

de Bragança para Lisboa do que para fora do país. “Mesmo vindo de Angola achei mais de 30 anos de atraso, os mesmos que hoje se verificam em Portugal”, admite, quando fala das maiores diferenças que sentiu entre culturas. Eurico é um dos poucos portugueses que não faz planos de voltar definitivamente para terras lusas, isto porque, como o próprio, diz “isso seria voltar para trás”.

Perguntando-se, numa perspectiva fantasiosa, sobre quem apoiaria no decorrer de um jogo de futebol entre Portugal e França, Eurico Hernâni Covas, responde que não torceria nem Portugal nem por França. Argumentando que o futebol é o mal do nosso país, ou seja, a droga do povo.

 

Vera Inácio

 

EstaJornal nº14 (29.06.07)

 
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Publicado por em 15/02/2009 in EstaJornal, Texto

 

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Ai eu! E a Carolina

Ora viva, hoje é um dia feliz! O momento pelo qual eu e a grande massa cultural portuguesa esperávamos, finalmente, chegou! O país está em êxtase! Eis que vindo da bruma, tal qual Dom Sebastião, nasce a proposta da criação do melhor momento cultural português. Estão criadas as condições para uma nova era de enriquecimento cultural. Finalmente vamos poder ver nas telas de cinema um filme inspirado no fantástico livro de Carolina Salgado. Mal posso esperar! Finalmente vou conseguir perceber por que é que um dirigente desportivo e um presidente do conselho de arbitragem gostam tanto de jantar juntos. Cheira-me a modernice.

De qualquer modo, qual bênção divina, agradeço o facto de os cinemas ainda não terem cheiro, isto porque ver a senhora dona Carolinha a aparar os pelos dos ouvidos do seu cônjuge, assim como a cortar-lhe as unhas, ultrapassa a minha noção de realismo cinematográfico. Mas a melhor de todas é a táctica da Carolininha de disfarçar os “descuidos” do seu amor com um cigarrinho, tinha toda uma dimensão diferente, com cheiro, claro está! Depois disto, possivelmente vou ter de imigrar. Não me parece que a frase “há que limpá-lo” se refira a um duchezito, mas não estou muito preocupada. A Rússia é já ali ao lado, e enquanto lá tiver especado o belo do cartaz do All Garve, a par do Kremlin, sentir-me-ei em casa.

Boas Algarviadas.

VI

EstaJornal nº14 (29.06.07)

 
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Publicado por em 15/02/2009 in EstaJornal, humor ou quase

 

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A volta ao Brasil em 40 dias

 

Dito assim nem parece que aconteceu, nem parece ter sido real. Eu “dei a volta ao Brasil em 40 dias”! Não me sinto privilegiada, nem diferente, como costumam dizer ou falar os colegas, amigos e conhecidos com quem falo. A minha vida não mudou grande coisa por ter feito esta viagem, mas é a primeira vez que penso nisso a sério: contar um pouco do que foi para mim o intercâmbio no Brasil.

Parece que a partir do momento em que as malas embarcam no ‘check-in’ e passamos os portões de embarque, somos transportados para uma realidade totalmente diferente. Não digo que seja um sonho, nem é, para mim, um mundo divinal. Bem longe disso. Acho que esta foi a realidade mais terrena que conheci até hoje. Cada pessoa absorve de forma muito particular as vivências de uma viagem e, apesar das vistas fantásticas e dos sítios diferentes que conheci na companhia dos meus colegas, nunca terei palavras suficientes para descrever o nome “Brasil”. Salvador, Porto Seguro, Belo Horizonte, Ouro Preto e Rio de Janeiro foram as cinco cidades que visitei. As duas primeiras são cidades do Nordeste, típicas pelas suas praias, pelo sotaque baiano, pelos vendedores de bijutaria, artesanato, camarão, caju e todo o tipo de vestimenta possível de ser envergada durante a época balnear. Porto Seguro, em particular, é o postal de um lugar cheio de charme pela sua beleza quase selvagem. A típica praia paradisíaca localizada em nenhures, pincelada de palmeiras, cabanas de madeira e diversões para os turistas. O centro da cidade está reservado a quem se renda aos transportes públicos, como o ‘ônibus’ e o táxi, ou a quem alugue um carro. Mas nada se compara aos bancos rígidos, ao achincalhar, à alta velocidade, nem ao efeito provocado pelo asfalto degradado, só proporcionado pelo ‘ônibus’. É, no entanto, um sítio tão terreno que custa acreditar, que de um momento para o outro, passemos do paraíso turístico para o bairro mais característico do nosso imaginário.

Onde a cada esquina e a cada carro que passa as demonstrações de fé se repetem. “Deus Ama quem confia”, “Deus protege”, Deus isto e Deus aquilo, são uma constante nos carros, nas casas, nas lojas. Não sei se seria uma fé escondida por detrás da humildade do sítio ou se o sítio se escondia na fé, isto por ver a quantidade de demonstrações de adoração ser proporcional ao baixo nível de vida.

Belo Horizonte (BH), por outro lado, não esconde as suas qualidades ou defeitos. É uma cidade inacreditavelmente grande comparada com qualquer coisa que possa existir em Portugal.

Subido o mirante, descobrimos porque é que Santo Papa afirmou uma vez, em visita a BH, que aquele era realmente um Belo Horizonte.

A imagem que se estende é a de um recortado de prédios com pequenas fileiras cor de tijolo que se difundem atrás de montes, entre raios de sol e a névoa à distância. Não é especialmente deslumbrante, mantém, no

entanto, o charme do design da cidade e da grandiosidade de tal construção.

A BH dos rodeos, das favelas, das misturas de raças, credos, classes sociais, modos de vida, é um pequeno espelho mineirinho de quase tudo o que neste momento significa para mim o verde e amarelo. Até o menino

sentado a par do semáforo conta a história de uma cidade onde existem pessoas muito pobres, algumas que até estão confortáveis na sua condição e outras que são … ricas.

O carinho e a vontade de receber de muitos (de quem bate uma saudade pequenina, bem lá no fundo) era o contraponto da falta de jeito mal disfarçada e do desleixo de outros.

Nada disto me faria hoje renunciar à experiência de viajar com três pessoas totalmente diferentes de mim, que colaboraram sem hesitar no projecto de entupimento de churrasco e doces proporcionado pelo nosso querido restaurante “Farroupilha”. Um sítio que ficava a caminho da FUMEC (universidade privada – bem paga), numa rua onde quase fomos atacado por um travesti que se sentiu insultado com um desabafo “cordial” que tivemos em resposta ao quase atropelamento da Maria numa passadeira. Outro dos nossos pontos de referência em BH era a Savassi. Um sítio da cidade totalmente elitista, frequentado por gente endinheirada e onde frequentemente

encontrávamos alguns colegas da FUMEC.

Era também o sítio mais perto de tudo e de todos, inclusive de refeições planeadas à última da hora, telefonemas, farmácia, compras, cinema… O contraponto deste quadro era a surpreendente feira Hippy! Onde víamos de tudo, desde pratos típicos, pastéis (salgados), milho cozido, coco verde fresco, malas, sapatos,

bijuteria, recordações, artesanato, roupa, tudo a perder de vista e a encher uma avenida

inteira uma vez por semana. Depois da visita a Ouro Preto e de volta a BH, conheci um sítio muito especial chamado parque das Mangabeiras, onde passeiam pequenos macacos, os micos (que

neste momento devem ser diabéticos, devido à quantidade de açúcar que ingeriam nesse

dia), e mais uma série de animais que jamais tinha visto ou ouvido falar. Os micos são engraçados,

curiosos e até assustadores (na sua confiança como s visitantes do parque). Sobre o Rio de Janeiro, pouco tenho a acrescentar. O Cristo é grande, ponto. E cá entre nós, aquilo de ser maravilha tem cunha

do pai, e pode agradecer-lhe todo o postal que o rodeia, é lindo.

Copacabana é Copacabana. Indescritível, imensa, com muita areia e muito sol, com muita gente na praia, com rapazes e raparigas a jogar futebol de praia, com recém-casados de 20 e 80 anos a passar a sua lua-de-mel…

Ipanema também não é muito diferente. Fica no lado oposto da cidade, mas é conhecida pelas garotas cruéis que só tem como objectivo a “grana”.

É o Brasil no seu melhor. Onde os “moleques” nem tentam sabotar a vida do turista, por saberem que na favela vai estar alguém de tocaia, à espera de uma oportunidade de os castigar por afastarem quem traz dinheiro.

“Oi moço…”, “oh txia dá um trocádo pá mim”, “ocê é americana?”, “Italiana?”,”Hmm, Espanhola?”, “Um djia vo vive para portugau”… vão ser sempre expressões a passar no rodapé do meu imaginário. O estalar do coco a ser arranjado, o cheiro do milho cozido, o paleio dos vendedores (e o ainda maior choradinho que fazíamos ao negociar algum produto), são recordações de algo que já lá vai. Fica para lembrar a quem quiser saber, que o Brasil é um sítio à espera de ser descoberto (sem usar uma expressão que associe de algum modo a colonização e que cause a algum brasileiro tanta fobia, como as piadas sul-americanas causam ao lusos). Os mais profundos agradecimentos a Ana Carolina, Izabella, Marcela B., Sérgio Lucarelli e todos aqueles que tem um cantinho especial no coração destes quatro “portugas”

 VI

EstaJornal nº15 (7.11.07)

 
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Publicado por em 15/02/2009 in EstaJornal, OUTROS, Texto

 

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Cães maus ou maus donos?

A inclusão, numa lista feita para o Parlamento Europeu por uma deputada italiana, de duas raças portuguesas de cães perigosos surpreendeu-me e deixou-me, para além de indignada, a questionar os critérios de selecção para entrada nesta lista. Serra da Estrela e Rafeiro do Alentejo são raças milenares que têm mantido intactas as suas características funcionais e comportamentais, segundo o comunicado à imprensa da Associação Portuguesa do Cão Serra da Estrela.

De um momento para o outro, os comunicados, críticas e discussões sobres os cães portugueses e raças “perigosas” multiplicaram-se por todo o país. Em especial sobre estas duas raças, concordo com criadores e associações que as defendem afirmando que são animais fiéis, protectores, tolerantes e cuidadosos com as crianças.

Desde sempre que lido com cães e sempre me interessei por estes animais e pelas suas características particulares, preocupando-me em ler sobre o assunto e conhecê-los melhor. Logo, devo admitir que não acredito em cães ou raças particulares de cães perigosos, isto porque estes são animais que, ao verem as suas necessidades preenchidas e a sua segurança assegurada, são pacíficos e excelentes companheiros.

Quanto aos cães perigosos que são usados como armas em assaltos ou que atacam pessoas sem motivo aparente, regra geral, o problema encontra-se nos donos que cometeram erros na educação do animal. Tudo tem peso e medida, e esta mesma regra aplica-se na educação de um animal, seja ele cão, gato, rato, chinchila ou periquito, por mais limitada que seja a sua inteligência. Até mesmo na educação daqueles que são

tendencialmente mais conflituosos ou enérgicos é possível criar um animal afável e respeitador

dos espaços alheios. César Millan, no livro “A paixão de César”, explica, ensina e ajuda entender como funcionam estes animais. Recomendo vivamente a leitura deste autor e da revista “Cães & Companhia”, assim como a consulta dos sítios na internet de associações de criadores de animais.

Um animal de estimação é um amigo, uma alegria no dia-a-dia do dono, mas é também um “contrato de responsabilidade”. Por isso, aconselho todos os interessados a informarem-se e a serem curiosos sobre os seus animais ou a pesquisar antes de adquirirem determinado animal. Cada animal e cada raça são diferentes, mas a recompensa de um amor incondicional não tem preço.

V.I.

EstaJornal (ed.nº13 – 13.04.09)

 
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Publicado por em 15/02/2009 in As Causas, EstaJornal, Opinião, Texto

 

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Vegetarianismo, alimentação saudável e respeito ético pelos animais

Vanda Botelho, consultora dietética da Campanha Seja Vegetariano, da Associação ANIMAL, apresenta as razões centrais para se ser vegetariano: o respeito ético pelos animais e pelos seus direitos; as preocupações com a nossa saúde e com uma alimentação mais saudável e equilibrada; as preocupações ecológicas e

preocupações humanitárias com a fome no mundo; a injustiça e ineficácia dos actuais sistemas de produção e distribuição de alimentos. Para além do mais, argumenta que a proteína animal é totalmente dispensável no organismo do ser humano.

“O vegetarianismo é uma dieta alimentar com uma qualidade nutricional excepcional capaz de contribuir para o tratamento e prevenção de muitas doenças, entre elas as mais recentemente designadas de ‘doenças da civilização’”. Nomeadamente, a obesidade, a hipercolesterolemia, a doença cardíaca, entre

outras, explica Vanda Botelho. Vera Rito trabalha numa loja no centro de Abrantes e é vegetariana desde criança. Começou a rejeitar naturalmente a carne e o peixe, logo em bebé. Foi uma reacção do próprio organismo. Como resultado, viu-se obrigada a adoptar outro modo de vida e de alimentação. “Foi um processo natural na minha vida” – refere. “Como ovos ou pizza quando saio com os amigos”, mas “hoje em dia já 

há muitas alternativas à carne, tais como a soja, o tofu e o seitan”. Vera aconselha ainda todos os curiosos a consultar receitas e a aprender a cozinhar bem os alimentos, porque a adaptação a esta dieta deverá ser gradual.

Vanda Botelho afirma ainda que “as dietas sem carne não são novas e nem raras”. Pitágoras, Hipócrates, Platão, Leonardo da Vinci, entre outros, são alguns dos nomes que estão incluídos na lista da alimentação sem carne. Os registos da prática de dietas sem carne por parte dos humanos estão datadas desde 600 anos Antes de Cristo.

 

Diferentes tipos de alimentação
 

Frugivevoranismo – Existe a exclusão de carnes, ovos, leite e seus derivados, bem como raízes, alimentando-se essencialmente de frutos frescos, frutos secos, frutos oleoginosos e sementes.

Crudívoranismo- Existe a exclusão de carnes, ovos, leite e seus derivados, bem como qualquer tipo de alimento processado, alimentando-se única e exclusivamente de vegetais crus.

Não são considerados parte do vegetarianismo todos os tipos de alimentação que incluam produtos alimentares de origem animal, pelo que os indivíduos que se auto-intitulam como praticantes dos diferentes tipos de dieta abaixo descritas não fazem realmente, parte do grupo de indivíduos vegetarianos.

Ovo-lacto-vegetarianismo – Existe a exclusão de carnes, não recusando o consumo de ovos, leite e seus derivados.

Ovo-vegetarianismo – Existe a exclusão de carnes, leite e seus derivados, não recusando o consumo de ovos.

Lacto-Vegetarianismo – Existe a exclusão de carnes e ovos, não recusando o consumo de leite e seus derivados.

Fonte: Associação Animal

 

Artigo de Vera Inácio em EstaJornal (ed.nº13 )

 
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Publicado por em 15/02/2009 in As Causas, EstaJornal, Texto

 

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Um dia da vida dos Bombeiros Municipais de Abrantes

Pouco passa das nove da manhã e o primeiro turno de bombeiros já tinha saído para serviço no exterior.

Os últimos carros abandonam as instalações dos Bombeiros Municipais de Abrantes, debaixo do foco dos dois olhinhos escuros de Agulheta, o cão que os bombeiros resgataram de um futuro previsivelmente pouco risonho quando o encontraram abandonado. Este é um início de dia sem problemas de maior.

Regra geral, o quartel funciona com dois grupos de equipas, as de intervenção e as de saúde. Uma equipa de dois elementos no INEM, dois elementos na reserva, seis no piquete, um chefe de serviço e um operador central. Esta realidade altera-se no Verão, época alta dos incêndios, em que as exigências de pessoal duplicam.

Este serviço, o primeiro do dia, engloba uma componente formativa, afirma o chefe José Luís Lopes, que coordenou durante toda a manhã o procedimento de troca de lâmpadas do Pavilhão Municipal do Pego. A acústica do imenso pavilhão faz ressoar o eco das vozes dos seis elementos da equipa, que circula com a escada e vai trocando as enormes lâmpadas danificadas, uma a uma. Este trabalho não foi apenas uma questão de serviço à comunidade, funcionou também como aula para manuseamento do equipamento. Já após a hora de almoço, enquanto os “carros vermelhos” repousavam no parque e no pavilhão, um incidente inesperado faz com que a sirene volte a chamar os bombeiros.

Deste feita, um Aixam, veículo ligeiro de condução autorizada com licença de ciclomotores, que entre as paisagens verdejantes dos arredores abrantinos, deixou os seus dois passageiros encarcerados, depois do

confuso acidente. Após o transporte dos dois feridos para o hospital, desencarceramento e limpeza da estrada, o funcionamento da via voltou à normalidade.

O esforço e o trabalho de equipa são necessários e criam uma proximidade e uma confiança quase familiar entre o grupo. Cada um tem a sua função e formação específica. Esta é uma realidade criada para uma boa organização e preparação de futuras emergências. Quando um bombeiro sai para um serviço, sai a saber o que

vai fazer nessa situação, certifica o comandante António Manuel. Os homens e mulheres que não entraram por influência ou história de família, deixaram-se levar pelo “bichinho”. Rita Teodoro, de 33 anos é auxiliar de serviços gerais e conta já com 13 anos de casa, e alguns à espera de reclassificação. A bombeira, que praticamente cresceu no quartel, diz que a sua grande influência foi o pai, que já se reformou, e o irmão. “Esta

é a nossa casa, porque a maior parte do tempo é aqui que nós estamos”. A família ressente-se um bocado. Com duas filhas, uma menina de seis anos e um de apenas 15 meses, garante que a sua situação é muito diferente da situação de alguns colegas mais novos ou sem família constituída.

Apesar de o filho mais pequenino ainda não possuir a real percepçãodos acontecimentos, Rita Teodoro confessa, emocionada ao falar dos filhos, que a filha mais velha muitas vezes fica a chorar.

Quando classifica como boa a profissão, também não encontra dificuldades em exemplificar situações de casais e pessoas que não conseguem enfrentar a complicada vida de bombeiro. O ordenado de 412€ e o tempo

dispendido levam muitas vezes a uma grande instabilidade.

Flávio Areias, tal como a colega, é auxiliar de serviços. Com 22 anos de idade e sete anos de serviço, resume os bombeiros em poucas palavras: “Muito estômago, muito tempo livre, pouco dinheiro e muito trabalho”. O

jovem conta que por vezes acontecem situações curiosas, “como por exemplo o caso de dois bombeiros que estavam aqui, fizeram a recruta e foram para o serviço, um incêndio. Avisaram que iam tomar banho a

casa e até hoje estamos à espera deles…”. “Nós, na recruta, não vemos as situações que por vezes vemos no INEM, na reserva ou nos incêndios” – sublinha.

À espera de reclassificação para bombeiro há dois anos, Flávio sentiu-se atraído pela profissão graças ao gosto pelo serviço de emergência. “Bombeiros, para mim, é emergência!”. No entanto, tenta equilibrar o

orçamento fazendo três escalas de serviço rotativo, o que o deixa com pouco tempo para a vida exterior ao quartel, em especial a vida pessoal, “namoradas”, amigos e família. “É difícil conjugar porque ou não podemos

sair, ou não podemos estar com a família. Natal, ano novo, anos, é tudo passado aqui”. “As namoradas de bombeiros que têm de aguentar, muitas vezes não aceitam ficar para segundo plano”, afirma o jovem.

Mário Baeta, recruta de 28 anos, decidiu este ano entrar para os bombeiros por influência dos amigos, mas também por um gosto pessoal que existia já desde criança. Quando questionado sobre a vida pessoal, o recruta revela-se consciente das dificuldades da vida de bombeiro e acredita que “com um pouco de sacrifício e vontade consegue-se tudo”.

Esta é a realidade escondida de um grupo de profissionais que são, na prática, “anjos da guarda” da comunidade, abdicando muitas vezes da companhia dos seus para auxiliar o próximo.

Vera Inácio

Publicado no Estajornal (ed.nº11)

 
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Publicado por em 14/02/2009 in EstaJornal, Texto

 
 
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